{"id":1716,"date":"2016-11-07T14:20:38","date_gmt":"2016-11-07T16:20:38","guid":{"rendered":"https:\/\/previews.elleven.digital\/acocearense\/?post_type=noticia&#038;p=1716"},"modified":"2025-05-07T14:23:13","modified_gmt":"2025-05-07T17:23:13","slug":"o-homem-de-aco-do-ceara","status":"publish","type":"noticia","link":"https:\/\/previews.elleven.digital\/acocearense\/noticia\/o-homem-de-aco-do-ceara\/","title":{"rendered":"O Homem de a\u00e7o do Cear\u00e1"},"content":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria do garoto que vendia carne na rua, no interior do Cear\u00e1, e se tornou um gigante do a\u00e7o sem abrir m\u00e3o do talento para calcular custos e benef\u00edcios, no trabalho e na vida.<span id=\"more-604\"><\/span><br \/>\nVilmar Ferreira, 65, comanda uma empresa com faturamento estimado para este ano de R$ 1,9 bilh\u00e3o e meta de atingir R$ 2,4 bilh\u00f5es em 2017. Tem cerca de 4 mil funcion\u00e1rios e atua em todo o Pa\u00eds. Deve fechar 2016 faturando 705 mil toneladas de a\u00e7o ( 5% importado). \u00c9 l\u00edder no Norte e Nordeste. Ao todo, o Grupo A\u00e7o Cearense possui cinco unidades: A\u00e7o Cearense Comercial (CE), A\u00e7o Cearense Industrial (CE), Sinobras Sider\u00fargica (PA), Sinobras Florestal (TO) e Instituto A\u00e7o Cearense (CE\/PA\/TO). Foi um golpe de sorte. A foice que fez sua perna sangrar aos 15 anos acabou por antecipar aquilo que decerto iria ocorrer mais adiante. O menino Vilmar, de Marco (CE), encerrava ali sua lida na ro\u00e7a para nunca mais voltar. Decis\u00e3o do pai, uma voz sagrada para ele tamb\u00e9m no momento em que acabou por deixar a venda de bebidas e iniciar a migra\u00e7\u00e3o para o a\u00e7o, d\u00e9cadas depois. Nos prim\u00f3rdios, deixou a agricultura para j\u00e1 virar comerciante. Matava e vendia sozinho um porco, aos peda\u00e7os. J\u00e1 aplicava o talento para fazer contas e praticava um racioc\u00ednio b\u00e1sico para tudo o que faz na vida at\u00e9 hoje, \u00e0 frente da A\u00e7o Cearense, l\u00edder no Norte e Nordeste em siderurgia e distribui\u00e7\u00e3o: custo e benef\u00edcio. Nesta entrevista, gravada na sala dele, na sede da empresa, durante cerca de 1h30min, ele fala da biografia, da conjuntura e de sonhos. Os sonhos mudaram e ele tem uma filha como sucessora.<\/p>\n<p>O POVO \u2013 O senhor \u00e9 conhecido como um empres\u00e1rio low profile. N\u00e3o gosta muito de aparecer e \u00e9 muito discreto nas rela\u00e7\u00f5es. O que o levou a aceitar esta entrevista?<br \/>\nVILMAR FERREIRA\u2013 Olha, primeiro a gente tem que ter bom relacionamento com as pessoas, principalmente com a imprensa, procuro contribuir muito com a sociedade. A imprensa esclarece. Acho bonito o trabalho da imprensa e acho bonito a gente colaborar.<br \/>\nOP \u2013 Pelo tamanho que seu neg\u00f3cio adquiriu, em que medida o seu tino comercial l\u00e1 do come\u00e7o ainda influencia nas decis\u00f5es?<br \/>\nVILMAR \u2013 Eu digo que o profissional j\u00e1 nasce profissional. E muitos profissionais n\u00e3o se d\u00e3o bem em um segmento apenas. A gente tem que acreditar, a gente tem sido determinado. Principalmente quando vem do sert\u00e3o, sem estudo, quando come\u00e7a a fazer sucesso na \u00e1rea empresarial. Isso empolga, principalmente com meu esp\u00edrito. Eu agora estou aprendendo o N\u00f3s. Porque muita gente defende s\u00f3 o Eu. Muita gente bota um pol\u00edtico para defender o seu setor, sua classe. Acho extremamente desleal consigo mesmo. Acho que a pessoa pra ser leal tem que olhar pra sociedade, olhar pro outro e at\u00e9 porque quando voc\u00ea tem compet\u00eancia, capacidade ou \u00e9 aben\u00e7oado pra viver melhor, por que n\u00e3o pensar nos outros? Voc\u00ea j\u00e1 se garante ent\u00e3o vamos pensar nos mais fragilizados. Essa filosofia que me d\u00e1 energia pra ser empres\u00e1rio, empreender, gerar renda, gerar imposto pro governo tamb\u00e9m. N\u00f3s somos os maiores arrecadadores de impostos no Cear\u00e1. Federais. Estaduais nem tanto porque tem benef\u00edcios.<br \/>\nOP \u2013 Como o senhor tem enfrentado mais esta crise econ\u00f4mica?<br \/>\nVILMAR \u2013 Isso tem me do\u00eddo, machucado tanto. Uma crise pol\u00edtica pela gan\u00e2ncia pelo poder. O que est\u00e1 em baixo querendo derrubar quem est\u00e1 em cima e quem paga \u00e9 a sociedade. A sociedade n\u00e3o entende muito, n\u00e3o acompanha muito o que \u00e9 uma economia, o que s\u00e3o os \u00edndices econ\u00f4micos. Hoje \u00e9 uma luta minha \u00e9 que voc\u00eas jovens se interessem para ver a realidade dos fatos, para n\u00e3o ficar iludido por algu\u00e9m que divulga seus interesses contradit\u00f3rios e gerar uma crise t\u00e3o grave como foi gerado nesses \u00faltimos tr\u00eas anos.<br \/>\nOP \u2013 O senhor \u00e9 um dos empres\u00e1rios que acreditavam naquele modo petista de governar no come\u00e7o quando estava tudo bem?<br \/>\nVILMAR \u2013 Eu n\u00e3o s\u00f3 acreditei n\u00e3o, continuo acreditando, n\u00e3o num modelo econ\u00f4mico petista, mas em qualquer modelo econ\u00f4mico e qualquer partido que tenha um modelo que gere emprego e renda e que seja bom para todos. Uma das coisas que eu queria que a sociedade entendesse e que os empres\u00e1rios entendessem \u00e9 que n\u00f3s dependemos muito do trabalhador. O trabalhador consome 100% do que ele ganha. Ele n\u00e3o poupa. N\u00f3s empres\u00e1rios, pessoas que ganham bem, n\u00e3o gastamos 5%, 3%, 10%, 15%, 20%. A gente tem que ter essa consci\u00eancia de trabalhar para aquele que consome mais. Por que nossa economia cresceu nos \u00faltimos anos? Por que eu defendo esse modelo econ\u00f4mico? Primeiro: aumento real de sal\u00e1rio, que eu defendo h\u00e1 mais de 30 anos. Eu defendo uma moeda forte. Pa\u00eds com moeda forte \u00e9 pa\u00eds com credibilidade. E sempre que a moeda foi forte n\u00f3s crescemos, a infla\u00e7\u00e3o foi fragilizada. O que fragiliza a infla\u00e7\u00e3o \u00e9 moeda forte. Voc\u00ea viu o exemplo de mar\u00e7o pra c\u00e1. De mar\u00e7o pra c\u00e1 a moeda come\u00e7ou a fortalecer, a infla\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a decrescer. Em setembro tivemos infla\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima de zero, em 0,8%. N\u00e3o concordo com o governo querer fragilizar a moeda para poder exportar. Isso fragiliza o Governo tamb\u00e9m, porque geramos desemprego muito grande, infla\u00e7\u00e3o, como aconteceu de dois anos pra c\u00e1, com a moeda desvalorizada. Tudo \u00e9 dolarizado, tudo que voc\u00ea importa \u00e9 em d\u00f3lar. Voc\u00ea v\u00ea que um p\u00e3ozinho que custava X reais quando a moeda estava valorizada dobrou de tr\u00eas anos pra c\u00e1. Ent\u00e3o e agora podia estar caindo mas o empres\u00e1rio segura um pouquinho, segura o pre\u00e7o mais alto, porque o empres\u00e1rio quer ganhar dinheiro e aproveitar as oportunidades. Passei por Itapipoca outro dia. Antes naquelas pra\u00e7as era muito jumento e bicicleta, hoje voc\u00ea v\u00ea motos e carros. Vi uma pesquisa em que cidades abaixo de 6 mil habitantes tiveram crescimento de 150% a venda de ve\u00edculos, enquanto em cidades como S\u00e3o Paulo,acima de 10 milh\u00f5es de habitantes, cresceu apenas 6%. Pobre passou a comprar geladeira, fog\u00e3o, carro, moto. N\u00e3o defendo corrup\u00e7\u00e3o, n\u00e3o defendo a coisa anti\u00e9tica mas tamb\u00e9m n\u00e3o vou na onda de especula\u00e7\u00f5es pra derrubar um modelo econ\u00f4mico que est\u00e1 bem.<br \/>\nOP \u2013 O senhor n\u00e3o compactua com os esc\u00e2ndalos que envolvem o governo que foi afastado, mas teme um retrocesso?<br \/>\nVILMAR \u2013 \u00c9 uma realidade. O governo foi deposto com uma pedalada fiscal, um d\u00e9ficit fiscal de R$ 40 bilh\u00f5es. Este ano foi aprovado um d\u00e9ficit de R$ 172 bilh\u00f5es, quatro vezes a mais e o Congresso aprovou. Foi uma falha do governo anterior n\u00e3o ter aprovado os R$ 40 bilh\u00f5es, que ela (Dilma Rousseff) n\u00e3o tinha levado o Pa\u00eds pra rua e prejudicando a sociedade toda, ao pagar um pre\u00e7o t\u00e3o alto. O que acontece? Esse ano j\u00e1 foi R$ 172 bilh\u00f5es. Parece-me que R$ 172 bilh\u00f5es n\u00e3o vai dar, a imprensa est\u00e1 dizendo que n\u00e3o vai dar, que \u00e9 mais de 400%. Voc\u00ea v\u00ea que em 2013 o governo gastou R$163 bilh\u00f5es com juros, esse ano vai gastar mais de R$ 600 bilh\u00f5es, mais o d\u00e9ficit fiscal que vai pular para quase R$ 150 bilh\u00f5es, que em 2013 foi R$ 40 e poucos bilh\u00f5es. Ou seja, em 2013 o d\u00e9ficit da Previd\u00eancia foi 0,96%, contra 3,8% em 2002. Veja quanto o d\u00e9ficit da Previd\u00eancia caiu com a economia crescendo. Eu tenho tantos dados que depois quero at\u00e9 divulgar, no pr\u00f3ximo ano. Estou fazendo um trabalho com dados econ\u00f4micos. Em 2013 chegamos ao auge da pujan\u00e7a econ\u00f4mica do Brasil, a menor taxa de empregos desde que come\u00e7aram a medir. A Selic mais baixa, desde quando foi criada a taxa. Estava tudo muito bem, a\u00ed simplesmente nossa presidente deu a louca de se influenciar pelas especula\u00e7\u00f5es negativas pelo governo, ela aceitou e a sociedade est\u00e1 pagando, o setor produtivo est\u00e1 pagando.<br \/>\nOP \u2013 O senhor n\u00e3o acha que os rem\u00e9dios amargos, antip\u00e1ticos s\u00e3o necess\u00e1rios neste momento?<br \/>\nVILMAR \u2013 N\u00e3o resta d\u00favida que os ajustes s\u00e3o necess\u00e1rios, mas n\u00e3o poder\u00edamos pagar t\u00e3o caro pelos ajustes da forma que pagamos, porque n\u00e3o foram s\u00f3 os ajustes. Foi ajuste e desajuste. Porque fizeram ajuste por um lado e desajuste mais pro outro. O ajuste come\u00e7ou ainda no governo Dilma, com o Levy (o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy). S\u00f3 que o Levy fez uns ajustes por um lado, positivo, e o negativo foi absurdo, o efeito em cascata negativo que gerou o desajuste tamb\u00e9m. A Selic alta demais, moeda desvalorizada demais. Nisso foi que perdemos a credibilidade, o setor produtivo deixou de produzir para poder aplicar dinheiro. Quem tinha dinheiro e quem n\u00e3o tinha estava quebrando e gerou esses milh\u00f5es de desempregos. Em 2014 quando eu vi a loucura, essas especula\u00e7\u00f5es, muitas mentiras exageros, que eu vi que o brasileiro tava em crise, fiz duas publica\u00e7\u00f5es no Valor Econ\u00f4mico, gastei bastante dinheiro para fazer as publica\u00e7\u00f5es.<br \/>\nOP \u2013 Gastou dinheiro como?<br \/>\nVILMAR \u2013 Pagando. Paguei o Valor. Uns R$ 300 mil numa publica\u00e7\u00e3o, R$ 200 mil em outra.<br \/>\nOP \u2013 An\u00fancio?<br \/>\nVILMAR \u2013 Sim, an\u00fancio. Para mostrar o que ia acontecer no Brasil com aquele modelo econ\u00f4mico que o mercado estava especulando. Aquele modelo que est\u00e1 especulando eu falei: subir juros, ou seja, desvalorizar moeda para combater infla\u00e7\u00e3o, para se exportar, gerar emprego, aquilo \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o, um absurdo aquilo dali. Pelo contr\u00e1rio, gerou desemprego, porque subiu juros para combater uma infla\u00e7\u00e3o de 5,7%, que pulou pra 11%, 12%. Aquilo pra mim era claro, que era desvalorizar moeda \u00e9 infla\u00e7\u00e3o, \u00e9 sangue na veia. Olha a contradi\u00e7\u00e3o: voc\u00ea desvaloriza moeda para combater infla\u00e7\u00e3o e sobe juros para criar processo recessivo para combater infla\u00e7\u00e3o. O que aconteceu? Um neutralizou o outro? Pelo contr\u00e1rio, foi efeito em cascata negativo, a infla\u00e7\u00e3o subiu mais ainda, gerando todas esse efeitos em cascata negativo que estamos vivendo hoje. Ent\u00e3o foi uma loucura a\u00ed eu fiquei desesperado. Fiquei decepcionado com meus colegas do setor produtivo que n\u00e3o enxergaram isso. O setor financeiro ficou aplaudindo porque era tudo que eles queriam para ganhar dinheiro. Isso gerou essa situa\u00e7\u00e3o toda, esse estresse todo que estamos pagando no mercado por isso.<br \/>\nOP \u2013 H\u00e1 um desejo entre os empres\u00e1rios de que o governo deveria interferir menos na economia, deixando o Banco Central mais aut\u00f4nomo. O senhor defende moeda mais forte, juros mais baixos\u2026o senhor acredita que o Governo deveria interferir?<br \/>\nVILMAR \u2013 Olha, eu devo interferir nos meus diretores da minha empresa. Se meu diretor est\u00e1 fazendo alguma coisa errada, ou seja alguma coisa que n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel \u00e0 empresa, eu interfiro. O que \u00e9 o presidente? O presidente \u00e9 para interferir naquilo que est\u00e1 trazendo mal para a sociedade. Se ele n\u00e3o tem compet\u00eancia, o povo tem que entender e cobrar dele. Ent\u00e3o se voc\u00ea v\u00ea um ministro, um presidente do Banco Central fazendo uma coisa que vai gerar um estresse para o mercado, ou seja o setor produtivo\u2026Porque quem gera riqueza \u00e9 o setor produtivo. O setor financeiro \u00e9 de suma import\u00e2ncia, para suprir, para financiar. Mas tem que financiar com juros competitivos. Nem falo dos juros da Europa que s\u00e3o negativos, juros dos EUA, que s\u00e3o baratos, mas aqui a gente est\u00e1 com juros reais de 14% de Selic, isso \u00e9 juro de 14% reais, e isso 14% reais n\u00e3o existe nem 1% na Europa, nem 1% nos EUA. No Brasil de junho para c\u00e1 com juros reais de 8%, isso n\u00e3o tem economia no mundo que sustente isso, que cres\u00e7a dessa forma. Ent\u00e3o a\u00ed o governo tem que interferir, a\u00ed realmente se ele n\u00e3o interferir ele n\u00e3o est\u00e1 defendendo a sociedade. N\u00e3o est\u00e1 defendendo o trabalhador. Isso \u00e9 um absurdo, sinceramente, a sociedade tem que entender isso, tem que acompanhar.<br \/>\nOP \u2013 Ao enxergar antes a crise o senhor teve tempo de preparar a empresa para enfrent\u00e1-la?<br \/>\nVILMAR \u2013 Eu n\u00e3o acreditei que a presidente fosse ser t\u00e3o, eu diria, ing\u00eanua, sei l\u00e1, para aceitar o que ela aceitou. Porque eu acreditava que ela queria ganhar as elei\u00e7\u00f5es e ela voltava, tanto que eu cheguei a votar nela, porque eu tinha votado no primeiro mandato dela. Nunca votei no Lula, mas dessa vez eu votei nela porque eu acreditava. At\u00e9 cheguei a falar com ela no ano passado quando ela esteve aqui. Mas \u00e9 claro que ela j\u00e1 estava deteriorada, psicologicamente arrasada, n\u00e3o tinha mais equil\u00edbrio emocional pra nada, ent\u00e3o o erro dela foi a fragilidade dela que era t\u00e3o forte, mas se fragilizou demais. Mas eu sabia que ia acontecer, por conta disso eu n\u00e3o acreditava que essa crise ia chegar aonde chegou. Eu achava que o setor produtivo n\u00e3o ia permitir, ou seja, ia dar um grito, mas me parece que o setor produtivo est\u00e1 iludido ainda com o novo governo ainda, mas vamos ver agora.<br \/>\nOP \u2013 O senhor est\u00e1 tranquilo?<br \/>\nVILMAR \u2013 Desde abril, quando a infla\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a cair eu tive contra\u00e7\u00e3o de parto. Pedindo e rezando. N\u00e3o s\u00f3 por mim e pela minha empresa, mas pelos empres\u00e1rios que est\u00e3o quebrando o Brasil, que est\u00e3o definhando o Brasil. Quando eu lembro que tem milh\u00f5es e milh\u00f5es de pais de fam\u00edlia pagando o pre\u00e7o, m\u00e3es desesperadas, crian\u00e7as saindo da aula porque o pai n\u00e3o pode comprar um livro, isso me d\u00f3i muito porque eu sou uma pessoa extremamente humana, al\u00e9m de religioso. Isso me deixa nervoso. Intranquilo.<br \/>\nOP \u2013 O senhor acredita que o impeachment foi bom ou ruim pro Pa\u00eds?<br \/>\nVILMAR \u2013 Tem uma coisa boa. Se a sociedade entender, conhecer a verdade, foi bom. Foi bom pra qu\u00ea? Para diminuir a corrup\u00e7\u00e3o. Acredito que daqui pra frente a corrup\u00e7\u00e3o realmente v\u00e1 ter limites. No mundo inteiro existe corrup\u00e7\u00e3o, mas no Brasil abusaram muito nos \u00faltimos anos. A corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi s\u00f3 num partido. A sociedade que tem conhecimento dos fatos, sabendo o que foi o motivo da crise. Se voc\u00ea v\u00ea os \u00edndices de 2013 e v\u00ea 2014 para c\u00e1 definhando, definhando. Foi um excelente trabalho que a imprensa fez, Minist\u00e9rio P\u00fablico, Pol\u00edcia Federal. Ali\u00e1s, n\u00e3o podemos deixar de entender que a presidente Dilma tamb\u00e9m colaborou com isso tamb\u00e9m. Porque em nenhuma hora ela interveio para parar a Lava-Jato, e ela viu colegas dela indo pra cadeia, pessoas do partido dela sendo denunciadas.<br \/>\nOP \u2013 O seu discurso sobre o governo do PT, da presidente Dilma, \u00e9 mais brando do que o que a gente costuma ouvir entre o empresariado cearense. Inclusive votou nela na reelei\u00e7\u00e3o. O senhor se sente meio sozinho entre os seus colegas empres\u00e1rios?<br \/>\nVILMAR \u2013 N\u00e3o s\u00f3 os colegas, at\u00e9 meus filhos, at\u00e9 meus diretores aqui, at\u00e9 de casa, eu me sinto s\u00f3 (risos). Agora j\u00e1 est\u00e3o me ouvindo, j\u00e1 est\u00e3o conseguindo me ouvir. Mas a for\u00e7a da m\u00eddia \u00e9 muito forte, por isso que ela \u00e9 importante, porque ela \u00e9 forte demais e as pessoas acreditam mais na m\u00eddia, s\u00f3 que eu trabalho com fatos, eu analiso os fatos, eu n\u00e3o olho, n\u00e3o me envolvo com especula\u00e7\u00f5es.<br \/>\nOP \u2013 Por falar em pre\u00e7o alto, a gente sabe que a A\u00e7o Cearense \u00e9 uma empresa muito sens\u00edvel a varia\u00e7\u00e3o cambial. Este foi o pior momento da hist\u00f3ria dela?<br \/>\nVILMAR \u2013 Olha, essa pergunta \u00e9 oportuna porque realmente n\u00f3s sofremos um golpe em 2014 e 2015 por causa da desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda porque nossa d\u00edvida \u00e9 muito em d\u00f3lar, mas hoje a nossa d\u00edvida \u00e9 mais em Real. N\u00f3s tamb\u00e9m temos uma sider\u00fargica, mais de 50% do nosso a\u00e7o, enquanto a moeda \u00e9 mais desvalorizada o a\u00e7o sobe mais o pre\u00e7o. Ent\u00e3o eu n\u00e3o sou suspeito em defender a moeda mais valorizada. Principalmente de dois anos pra c\u00e1 que a minha d\u00edvida passou a ser 80% em Real. Outra: n\u00f3s temos essa sider\u00fargica que o setor do a\u00e7o busca uma moeda desvalorizada. S\u00f3 que \u00e9 um equ\u00edvoco. Primeiro o governo n\u00e3o arrecada, voc\u00ea n\u00e3o exporta. O Brasil n\u00e3o \u00e9 competitivo pra exportar a\u00e7o, ent\u00e3o, e mesmo que exportasse, para o governo n\u00e3o \u00e9 interessante porque o governo n\u00e3o arrecada imposto com exporta\u00e7\u00e3o. Arrecada \u00e9 com consumo interno e \u00e9 consumo interno que gera emprego, riqueza. \u00c9 nele que todo mundo sai ganhando, trabalhador e o governo tamb\u00e9m. E o governo \u00e9 sociedade, voc\u00eas sabem disso.<br \/>\nOP \u2013 Foi o pior momento na sua hist\u00f3ria?<br \/>\nVILMAR \u2013 N\u00e3o, foi n\u00e3o. Passei v\u00e1rias crises, a gente j\u00e1 passou por v\u00e1rias crises e todas a gente superou.<br \/>\nOP \u2013 Muitas empresas recorreram \u00e0 Recupera\u00e7\u00e3o Judicial (RJ), mas voc\u00eas n\u00e3o chegaram a tanto. Embora tenha dialogado com o mercado, conversou, usou sua credibilidade. Como o senhor agiu quando se deparou com essa crise terr\u00edvel. Podemos chamar de RJ informal?<br \/>\nVILMAR \u2013 N\u00e3o, eu n\u00e3o fiz RJ informal. N\u00e3o fiz. Primeiro RJ voc\u00ea n\u00e3o paga juros durante tantos anos, estamos pagando juros normalmente. Vou te falar o que \u00e9 meu esp\u00edrito, o que eu aprendi e o que eu parece que j\u00e1 nasci com isso, n\u00e3o sei: a coer\u00eancia e a justi\u00e7a. O que \u00e9 meu \u00e9 meu, o que \u00e9 dos outros \u00e9 dos outros. Ent\u00e3o o do governo \u00e9 do governo, o do meu credor \u00e9 do meu credor. O maior patrim\u00f4nio que n\u00f3s temos n\u00e3o \u00e9 o f\u00edsico, n\u00e3o \u00e9 vender quase um milh\u00e3o de toneladas como n\u00f3s vend\u00edamos como foi em 2014 e 2015 e nem, ou seja, e o volume de faturamento, que voc\u00ea sabe que nossa empresa \u00e9 uma das maiores do Cear\u00e1. O maior patrim\u00f4nio nosso n\u00e3o \u00e9 o f\u00edsico, \u00e9 a credibilidade. A minha credibilidade, a nossa, a minha equipe, uma equipe que veste a camisa, que d\u00e1 o sangue por essa empresa. Preparada, uma equipe de 35 anos que essa equipe d\u00e1 essa sinergia, essa energia e gera pra gente uma for\u00e7a num momento desse voc\u00ea n\u00e3o se fragiliza. Tira sangue das veias, tira leite de pedra como eu falo e a gente sai, mas a credibilidade \u00e9 muito importante. Foi a credibilidade de mais de 50 anos de empres\u00e1rio desde que comprava ovos l\u00e1 no interior, matando bode \u00e0s 5 horas da manh\u00e3 com 15 anos de idade. Eu sa\u00eda vendendo em um jumento. A gente criou essa estrutura e essa estrutura hoje tem como o mais importante a credibilidade, junto ao cliente e junto ao nossos credores. Nosso credor acredita na gente.<br \/>\nOP \u2013 A A\u00e7o Cearense \u00e9 uma grande empresa e que nos prim\u00f3rdios pelo menos era muito atacada pelos grandes grupos do a\u00e7o. O senhor se considera hoje um player desse clube de sider\u00fargicas?<br \/>\nVILMAR \u2013 N\u00e3o, hoje \u00e9 muito normal. Houve no passado. N\u00f3s passamos uns 30 anos sofrendo. N\u00e3o 30 anos, os primeiros 6 anos foi s\u00f3 ou seja s\u00f3 eu diria muito agrad\u00e1vel os primeiros anos. Mais beijo. Depois muito mais tapas, quando passamos a concorrer com os pr\u00f3prios fornecedores. A gente passou a incomodar, cresceu muito nos seis primeiros anos e nesse crescimento incomodou os grandes. Na \u00e9poca tinha muitas estatais no Brasil, ent\u00e3o elas foram me ajudando, as empresas de a\u00e7o privadas come\u00e7aram a se incomodar e me apertaram, jogaram milh\u00f5es pela janela. Foi muitos milh\u00f5es que jogaram pela janela, mas tinha as estatais. Deixaram de ser estatais, foram privatizando ent\u00e3o a situa\u00e7\u00e3o foi complicando. Qual foi a nossa atitude que ajudou a gente a crescer mais ainda? Foi passar a importar. A importa\u00e7\u00e3o, sair do mercado interno. Como tinha muitas barreiras no Brasil para importar e a gente quebrou todas as barreiras, isso foi o nosso sucesso.<br \/>\nOP \u2013 Este foi o grande inc\u00f4modo.<br \/>\nVILMAR \u2013 Foram milh\u00f5es, eu diria que foi bilh\u00f5es jogados pela janela. Eu n\u00e3o vou dizer muitos bilh\u00f5es, mas foram alguns bilh\u00f5es, corrigido o pre\u00e7o de hoje sim.<br \/>\nOP \u2013 Jogar pela janela porque eles fizeram dumping para brigar?<br \/>\nVILMAR \u2013 Baixaram pre\u00e7o, n\u00e3o me atendiam aqui no mercado interno, concorriam comigo para sufocar. Mas isso me deu energia. Agora tamb\u00e9m muita f\u00e9 em Deus. Eu n\u00e3o tenho nada que eu n\u00e3o fa\u00e7a atrav\u00e9s de ora\u00e7\u00f5es e acreditando nas minhas ora\u00e7\u00f5es. Minhas ora\u00e7\u00f5es s\u00e3o durante a noite, de madrugada, durante a noite, de manh\u00e3, a caminho do trabalho, chego aqui est\u00e1 aqui meu santuariozinho aqui, aquele ali ao lado \u00e9 social, trof\u00e9us, n\u00e3o sei qu\u00ea, encomendas, mas\u2026<br \/>\nOP \u2013 O senhor reza aqui?<br \/>\nVILMAR \u2013 Um pouquinho de ora\u00e7\u00e3o aqui todo dia quando eu chego, tem um pouco de \u00e1gua benta aqui. Tudo isso aqui eu ganhei, eu prezo muito isso aqui. Tem uma ora\u00e7\u00e3o aqui, Ora\u00e7\u00e3o do Divino Jesus. Esta ora\u00e7\u00e3o h\u00e1 mais de 20 anos eu anotei aqui. Toda vida que acaba a velinha eu troco. Eu tenho uma ora\u00e7\u00e3o que eu aprendi num sonho uns 10 anos atr\u00e1s. Por coincid\u00eancia uma pessoa pegou no meu livro, essa ora\u00e7\u00e3o, eu aprendi num sonho.<br \/>\nOP \u2013 O senhor sonhou com esse texto?<br \/>\nVILMAR- N\u00e3o, eu estava num sonho com medo de cruzar uma pessoa do Interior. Algo me dizia assim: meu Jesus, eu confio em v\u00f3s, estou salvo pela gra\u00e7a de Deus, em nome do pai, do filho, do Esp\u00edrito Santo. A\u00ed botei no livro, h\u00e1 seis anos minha mulher fez um livro com minha hist\u00f3ria e botei essa ora\u00e7\u00e3o no livro. Uma gerente de um banco no meu anivers\u00e1rio do ano passado chegou com um presente pra me dar, eu pensei que era um livro, a\u00ed quando eu vi era essa ora\u00e7\u00e3o nesse quadro. Eu achei uma coisa, um recado.<br \/>\nOP \u2013 Ela n\u00e3o sabia que o senhor tinha sonhado?<br \/>\nVILMAR \u2013 No livro dizia. Mas ela encontrar no livro, por que n\u00e3o me deu um livro, outra coisa? Ela me deu esse quadro, me deu o quadro\u2026<br \/>\nOP \u2013 O senhor continua nesse banco at\u00e9 hoje?<br \/>\nVILMAR \u2013 N\u00e3o, eu vou em todos os bancos (risos). Mas o importante \u00e9 que eu continuo rezando essa ora\u00e7\u00e3o v\u00e1rias vezes ao dia. Isso \u00e9 o importante.<br \/>\nOP \u2013 O senhor \u00e9 o s\u00edmbolo do cearense trabalhador, que n\u00e3o cresceu \u00e0s custas de contrato p\u00fablico, etc. Cresceu por conta pr\u00f3pria. Queria que o senhor contasse essa hist\u00f3ria.<br \/>\nVILMAR \u2013 Eu fui uma crian\u00e7a de pais muito pobres em Marco (Zona Norte do Cear\u00e1) com 13 filhos\u2026<br \/>\nOP \u2013 Viviam de qu\u00ea eles?<br \/>\nVILMAR \u2013 Da agricultura. Da agricultura e at\u00e9 oito filhos meu pai deu pra sustentar razoavelmente os filhos, a\u00ed chegou a seca do 58 (1958), eu tinha oito anos, sou de 50 (1950), ent\u00e3o a seca levou dois ter\u00e7os das economias dele, um gadinho, pouco que ele tinha, ovelhas, esse neg\u00f3cio de cria\u00e7\u00f5es. Eu com11 anos j\u00e1 n\u00e3o concordava com meu pai por plantar mandioca. Eu com 11 anos j\u00e1 sabia fazer avalia\u00e7\u00e3o. Mandioca ela s\u00f3 colhe com dois anos, e o custo era muito alto. Quando eu fazia esse c\u00e1lculo mais ou menos, que mandioca custava mais pra colher do que quando ia vender a farinha, n\u00e3o compensava. Eu sempre fui muito bom com matem\u00e1tica. Minhas notas eram as melhores. Eu sempre fui o melhor aluno de matem\u00e1tica.<br \/>\nOP \u2013 O senhor estudou at\u00e9 que ano?<br \/>\nVILMAR \u2013 At\u00e9 a s\u00e9tima s\u00e9rie, que \u00e9 o segundo gin\u00e1sio na \u00e9poca. At\u00e9 fa\u00e7o uma brincadeira porque meu professor de matem\u00e1tica um dia botou um problema pra gente resolver e ningu\u00e9m acertou. A\u00ed quando ele disse que falou o problema, eu me convenci que tava certo porque era o professor, mas a\u00ed eu chamei um colega meu, que era at\u00e9 irm\u00e3o dele e eu disse: \u201cmeu problema est\u00e1 certo, o professor Airton n\u00e3o est\u00e1 certo n\u00e3o\u201d. A\u00ed ele se convenceu. Nem o professor acertou o problema e eu acertei, e isso foi pra sacramentar aquilo que eu sou convencido. Eu fazia muita conta de cabe\u00e7a, ent\u00e3o acho que meu racioc\u00ednio \u00e9 muito bom, para falar eu sou p\u00e9ssimo pra falar. Meu racioc\u00ednio \u00e9 muito r\u00e1pido, mas pra externar eu tenho muita dificuldade.<br \/>\nOP \u2013 Quando o senhor deixou a ro\u00e7a?<br \/>\nVILMAR \u2013 Aos 15 anos eu estava na ro\u00e7a, inclusive com meu pai, com uma foice ro\u00e7ando, quando a foice escorregou da minha m\u00e3o, porque tinha o orvalho da manh\u00e3, \u00e0s 9h30min. O cabo liso escorregou e cortou minha perna. Jorrou muito sangue, meu pai fez um torniquete e me botou no bra\u00e7o. Pronto, meu irm\u00e3o, \u00e9 por isso que eu sou religioso e meu pai muito religioso tamb\u00e9m. Ele disse: \u201cNossa Senhora te aben\u00e7oe e nunca mais te mando pra ro\u00e7a\u201d. Tudo aconteceu porque meu pai estava apertado na \u00e9poca. Ele sempre vendia um cavalinho ou vaquinha para pagar as contas. Eu tinha uma vaquinha que meu padrinho me deu quando eu era crian\u00e7a, me deu uma bezerra e virou uma vaquinha e algu\u00e9m queria comprar essa vaca. Ele vendeu essa vaca e me deu o valor da vaquinha mais ou menos de um quarto da vaca, uns R$ 1 mil hoje possivelmente. Com esse dinheiro eu comecei a comprar ovo de galinha, um bode, um porco. Eu com 15 anos matava um porco sozinho, cortava os pedacinhos, 1 kg, 2 kg, botava num jumento e sa\u00eda vendendo.<br \/>\nOP \u2013 Com aquelas caixas do lado?<br \/>\nVILMAR \u2013 \u00c9, cambito. Ou ca\u00e7u\u00e1, como chamavam. Eu sa\u00eda vendendo num raio de 8 km. J\u00e1 sabia quem comprava, quem gostava do f\u00edgado, da cabe\u00e7a do porco, quem gostava da fu\u00e7a e sa\u00eda vendendo. E comprando surr\u00f5es, ovos de galinha, o que eu podia comprar. E vendia na cidadezinha. Eu morava a 2 km da cidadezinha. E a\u00ed foi a\u00ed que eu comecei a criar uns porquinhos, fazer uma economia. Com 18 anos eu vendi meus porquinhos, paguei as contas do meu pai e vim pra Fortaleza para procurar um emprego.<br \/>\nOP \u2013 Tinha fam\u00edlia aqui?<br \/>\nVILMAR \u2013 Tinha uns primos. A\u00ed o primo da minha m\u00e3e me deu um emprego. E esse primo da minha m\u00e3e tinha uma mercearia. Ele n\u00e3o tinha emprego pra me dar, mas ele coincidentemente tinha tr\u00eas funcion\u00e1rios e um tinha pedido pra sair de f\u00e9rias naquele mesmo dia. A\u00ed disse: \u201cse voc\u00ea quiser tirar as f\u00e9rias dele\u2026 E quanto voc\u00ea quer ganhar? Eu te pago alguma coisa?\u201d Eu: \u201cn\u00e3o, eu n\u00e3o quero ganhar nada, eu s\u00f3 quero trabalhar\u201d. Ent\u00e3o eu comecei a trabalhar. Com dois a tr\u00eas dias ele come\u00e7ou a me chamar de Pimenta, porque quando chegava um cliente eu corria pra atender. Da\u00ed quando o outro colega voltou, tudo bem. Voltou mas n\u00e3o me dispensou. Pelo contr\u00e1rio, a\u00ed eu virei gerente dele, mas ele me passou a pagar 10 cruzeiros.<br \/>\nOP \u2013 Morava l\u00e1 mesmo na mercearia?<br \/>\nVILMAR \u2013 Morava l\u00e1, passei um ano e seis meses morando l\u00e1. Onde \u00e9 a Leste Oeste hoje, ali perto do antigo IML, rua Braga Torres, n\u00e3o lembro o n\u00famero. E ele morava na rua Senador Alencar, meu patr\u00e3o. Ent\u00e3o eu carregava trouxa de roupa, com 18, 19 anos. Pegava trouxa de roupa suja da Senador Alencar na cabe\u00e7a pra levar pra a lavanderia dele. A pessoa fazia feira e eu ia entregar com os colegas na cabe\u00e7a as caixas. Onde \u00e9 hoje o Marina (Park Hotel), alia era prostitui\u00e7\u00e3o a gente entregava ali. Eu ganhava s\u00f3 um ter\u00e7o de um sal\u00e1rio m\u00ednimo. O sal\u00e1rio custava 123,80, mas s\u00f3 pagava um ter\u00e7o do que tava na carteira e eu aceitei. Com seis meses eu virei gerente dele, ele n\u00e3o aumentou o sal\u00e1rio, nunca pedi, nunca diminu\u00ed tamb\u00e9m meu potencial de trabalho, minha responsabilidade. Quando comecei a dormir l\u00e1 as sacas era um metro e meio de altura. Quando eu sa\u00ed j\u00e1 tinha feito a reforma, no teto nossa rede ficava junto com o teto, acordava 5, 6 horas da manh\u00e3 e s\u00f3 fechava 8 da noite, ou seja trabalhando 10, 15 horas por dia. Ent\u00e3o fui ao Interior um ano e seis meses depois. Pedi permiss\u00e3o pra vender uma vaquinha que eu tinha deixado l\u00e1. Meu irm\u00e3o mais velho tinha economia maior que eu porque eu sempre ajudava meu pai e meu irm\u00e3o n\u00e3o ajudava tanto. O que aconteceu, n\u00f3s nos juntamos os dois e montamos uma merceariazinha no morro. Tinha muita prostitui\u00e7\u00e3o e a gente conviveu, mas comecei a trazer minha fam\u00edlia pra c\u00e1. Meu irm\u00e3o rachou a sociedade comigo, ele n\u00e3o queria mais trabalhar comigo. Da\u00ed eu fiquei s\u00f3 trazendo minha fam\u00edlia pra c\u00e1.<br \/>\nOP \u2013 Por que n\u00e3o deu certo?<br \/>\nVILMAR \u2013 Um dia ele ficou chateado comigo, porque eu fui ao Interior a contragosto dele, ele era irm\u00e3o mais velho. Quando cheguei a sociedade tava apartada, a\u00ed eu comecei a trazer a fam\u00edlia. Quem tinha dinheiro para botar um neg\u00f3cio botava o seu. Alguns cunhados e alguns irm\u00e3os mais novos ficaram tudo comigo e ent\u00e3o veio uma crise que foi exatamente quando a Leste-Oeste foi feita e levou minha clientela. Quando eu vi, tinha ido \u00e0 fal\u00eancia. Deixei meu pai cuidando da mercearia e botei um dep\u00f3sito de bebidas a duas quadras aqui da A\u00e7o (em frente ao Mercado S\u00e3o Sebasti\u00e3o, na Bezerra de Menezes). Estou aqui nesse mercado desde 1975. Hoje estamos com 41 anos j\u00e1 aqui nesse mercado e no ramo do a\u00e7o 37, 38 anos.<br \/>\nOP \u2013 E como foi que a bebida virou a\u00e7o?<br \/>\nVILMAR \u2013 Lindo, bacana foi essa passagem da bebida. Porque bebida foi para salvar a situa\u00e7\u00e3o, porque quando eu vi que a coisa n\u00e3o tava dando, eu soube que tinha o pessoal de bebida que ganhava um dinheirinho, ent\u00e3o como meu dinheiro \u00e9 pouco n\u00e3o d\u00e1 pra botar neg\u00f3cio grande, vou vender bebida. A\u00ed botei esse neg\u00f3cio de bebida, mas com quatro meses j\u00e1 estava bem. Simplesmente sofri um acidente que quebrei bacia, fratura, bra\u00e7o, clav\u00edcula e passei quase tr\u00eas meses no hospital, a\u00ed quando voltei o m\u00e9dico disse: \u201cvoc\u00ea vai pra casa e ainda tem que descansar um m\u00eas\u201d. Mas quando cheguei ao dep\u00f3sito de bebida que minha irm\u00e3 tava cuidando, uma menina de 16 anos, e dois funcion\u00e1rios j\u00e1 tinham depenado o dep\u00f3sito, n\u00e3o tinha nada. Um t\u00edtulo no cart\u00f3rio que era uns R$ 3 mil hoje, ent\u00e3o eu tive que fazer empr\u00e9stimo no banco. Um irm\u00e3o meu avalizou esse empr\u00e9stimo, mas a\u00ed sim, quando eu vi essa situa\u00e7\u00e3o eu n\u00e3o passei um m\u00eas, passei s\u00f3 um dia sem trabalhar. Peguei minha Kombi, que estava parecendo um maracuj\u00e1, e rodei a rua comprando bebida, vendendo cerveja, ent\u00e3o pronto. Foi um sucesso, mas n\u00e3o t\u00e3o grande assim. Em 1979, depois de quatro anos, a gente tinha patrim\u00f4nio de US$ 50 mil, foi quando mudei o ramo do a\u00e7o. Foi a segunda parte melhor da minha vida. Primeiro ele tinha dito Nossa Senhora aben\u00e7oe, nunca mais te mando pra ro\u00e7a, quando eu tinha 15 anos. Nesse dia fui fazer visita ao meu pai, j\u00e1 estava casado, em 1979, tinha filho j\u00e1 e ele disse: \u201cmeu filho, n\u00e3o estou satisfeito isso voc\u00ea vender bebida, porque bebida faz mal ao homem\u201d. Isso foi lindo. A\u00ed aquilo eu recebi como uma ordem, uma semana eu tava alugando um ponto vizinho uma quadra de onde eu estava e abri um dep\u00f3sito de material de constru\u00e7\u00e3o. Em uma semana analisei tudo vi que era um neg\u00f3cio bom. Mas a\u00ed um colega meu de bebida, concorrente, disse \u201cVilmar, por que tu n\u00e3o bota a\u00e7o? Esse homem botou h\u00e1 dois anos e ta rico\u201d. Eu n\u00e3o sou de pegar corda,de me influenciar com os outros n\u00e3o, mas aquilo me pegou assim parecia uma b\u00ean\u00e7\u00e3o mesmo, encaixou, ent\u00e3o passei a vender a\u00e7o.<br \/>\nOP \u2013 E como foi que o senhor conseguiu migrar?<br \/>\nVILMAR \u2013 \u00c9 uma hist\u00f3ria bonita tamb\u00e9m. O pessoal da Gerdau (multinacional brasileira do setor, com sede em Porto Alegre-RS) n\u00e3o podia mais abrir cliente. Eu procurei o representante e ele disse: \u201cn\u00e3o, n\u00f3s estamos proibidos de abrir clientes novos\u201d. Ent\u00e3o fui ao Recife, botei tudo que eu tinha numa capanga, vendi o dep\u00f3sito, uns US$ 50 mil, j\u00e1 tinha alugado o ponto, com o nome Ferro OK. Por que esse nome? Porque na \u00e9poca tinha Pneus OK e na \u00e9poca fazia muita propaganda de televis\u00e3o, eu queria pegar carona no Pneus OK.<br \/>\nOP \u2013 Que depois incendiou.<br \/>\nVILMAR \u2013 Pois \u00e9. Depois de um tempo incendiou, mas o Ferro OK ficou. A\u00e7o n\u00e3o pega fogo, ent\u00e3o fui mais feliz (risos). Mas achei o nome ainda fraco, ent\u00e3o mudei para A\u00e7o Cearense a\u00ed tive essa ideia, porque no Brasil tudo era Ferro, Ferro Norte n\u00e3o sei qu\u00ea, ent\u00e3o fui a ideia que a\u00e7o \u00e9 mais forte que ferro, botei A\u00e7o Cearense, foi um sucesso at\u00e9 hoje.<br \/>\nOP \u2013 O senhor na verdade na ess\u00eancia \u00e9 comerciante. Este seu tino comercial o senhor considera o seu maior atributo profissional?<br \/>\nVILMAR \u2013 Acho que \u00e9, o custo-benef\u00edcio. Fazer c\u00e1lculo. Isso \u00e9 importante. Voc\u00ea primeiro ter determina\u00e7\u00e3o do que faz, tudo que faz. O empreendedor \u00e9 como qualquer tipo de profissional, tem que gostar, ter determina\u00e7\u00e3o no que faz, procurar sempre fazer melhor e conquistar o espa\u00e7o dele. Ent\u00e3o o jogador de futebol, \u00e9 assim o artista pl\u00e1stico, m\u00e9dico, advogado que chega a ser famoso. Eu queria ser famoso n\u00e3o s\u00f3 por mim pela minha fam\u00edlia, mas pra ser \u00fatil \u00e0 sociedade e foi isso o meu forte. O meu racioc\u00ednio \u00e9 muito agu\u00e7ado e em matem\u00e1tica tamb\u00e9m raciocino muito r\u00e1pido, ent\u00e3o fui fazer o custo-benef\u00edcio. Um dia quando fui botar a ind\u00fastria, minha primeira, um amigo meu disse: \u201ctu \u00e9 muito bom em com\u00e9rcio, t\u00e1 se destacando, todo mundo elogia, ind\u00fastria tem nada a ver com com\u00e9rcio\u201d. E eu: \u201cn\u00e3o, pra mim \u00e9 s\u00f3 agregar mais um servi\u00e7o, porque \u00e9 s\u00f3 agregar. Vi o custo \u00e9 bom, ent\u00e3o pra qu\u00ea que eu n\u00e3o vou fazer?\u201d. \u00c9 s\u00f3 agregar o servi\u00e7o \u00e0 mat\u00e9ria prima, produzir e ver qual o lucro. Foi nisso que me dei muito bem.<br \/>\nOP \u2013 Como o senhor reconhece os \u201cPimentas\u201d da sua empresa? Gente talentosa como o senhor os identifica?<br \/>\nVILMAR \u2013 No dia-a-dia a gente identifica os filhos da gente, a gente sabe quem s\u00e3o os filhos da gente, os amigos, sabe quem \u00e9 quem, ent\u00e3o \u00e9 isso, quem est\u00e1 aqui pode considerar quem \u00e9 os pimentas, porque se n\u00e3o fosse n\u00e3o estaria aqui. \u00c9 claro que a gente \u00e0s vezes quando a empresa cresce, como chegou a 4.800 funcion\u00e1rios como ano passado, \u00e9 dif\u00edcil conhecer todos, mas h\u00e1 sempre a equipe conhece.A equipe parece muito com voc\u00ea. Voc\u00ea aprende muito com a equipe, eu aprendo muito com meus funcion\u00e1rios, com oper\u00e1rios, com pessoas humildes, porque isso \u00e9 o mais importante. O que eu digo: a gente s\u00f3 \u00e9 competente reconhecendo limita\u00e7\u00f5es. Eu tenho limita\u00e7\u00f5es aqui que e tem oper\u00e1rio aqui que d\u00e1 de chinelo em mim. O nosso vice-presidente (Ian Correa) \u00e9 fera. Colaborou muito com nossa empresa, ent\u00e3o ele trouxe uma energia muito grande para fazer a fazer governan\u00e7a da empresa. Quando eu montei a Sinobras (sider\u00fargica em Marab\u00e1 \u2013 PA) eu montei e fiquei desesperado por ser distante. N\u00e3o podia deixar a A\u00e7o Cearense pra cuidar da Sinobras, ent\u00e3o foi quando ele foi contratado. Ele ajudou muito na profissionaliza\u00e7\u00e3o da empresa. Aos poucos voc\u00ea vai reconhecendo o mais fraco e vai tirando. Hoje, gra\u00e7as a Deus, eu diria a voc\u00ea que s\u00f3 t\u00e1 faltando dinheiro mas \u00e9 uma empresa bem profissional.<br \/>\nOP \u2013 A sabedoria popular diz que n\u00e3o deve contratar quem voc\u00ea n\u00e3o pode demitir. Como o senhor lida com a componente familiar dentro da sua empresa?<br \/>\nVILMAR \u2013 Primeiro, quando eu tinha sete irm\u00e3os na empresa foi realmente dif\u00edcil. Meus irm\u00e3os queriam mandar mais do que eu e sendo meus funcion\u00e1rios. Mas um dia eu dei um murro na mesa e disse: \u201cde hoje em diante eu sou o dono dessa empresa\u201d. Porque eu estava realmente sofrendo muito. A gente come\u00e7ou a montar neg\u00f3cio para eles e a profissionalizar a empresa. Hoje s\u00f3 temos aqui a nossa diretora uma irm\u00e3 (Maria Ferreira, conhecida por todos como Maju) porque ela conquistou espa\u00e7o. E uma filha. N\u00e3o fui eu que dei espa\u00e7o para elas. .E quem tava por emo\u00e7\u00e3o sa\u00edram todos.<br \/>\nOP \u2013 Como o senhor est\u00e1 tratando sucess\u00e3o familiar na empresa? Sua filha \u00e9 sua sucessora natural?<br \/>\nVILMAR \u2013 Olha, foi como falei. A Aline conquistou o espa\u00e7o dela. Ela veio conquistando. Para meu filho mais velho sim, dei mais espa\u00e7o pra ele ofereci muitas condi\u00e7\u00f5es pra ele, mas depois eu vi que realmente quem \u00e9 empres\u00e1rio empreendedor n\u00e3o pode usar emo\u00e7\u00e3o. Pai \u00e9 pai, neg\u00f3cio \u00e9 neg\u00f3cio. Hoje meu filho que tem uma empresa em S\u00e3o Paulo e cuida dela, tem uma que mora nos EUA e a Aline conquistou esse espa\u00e7o. E eu achei legal da Aline \u00e9 que uns quatro cinco anos atr\u00e1s eu disse \u201cminha filha, o pessoal come\u00e7ou a elogiar, at\u00e9 o pr\u00f3prio Ian. \u201cOlha, a Aline est\u00e1 desenvolvendo bem, parece que tem condi\u00e7\u00f5es de ser tua sucessora e tal, bom a gente trabalhar dar mais aten\u00e7\u00e3o e tal\u201d. Ai eu chamei ela (sic) e pra conversar e disse: \u201cminha filha, nosso diretor e colegas aqui t\u00e3o dizendo que voc\u00ea tem perfil pra conquistar esse espa\u00e7o\u201d. A\u00ed ela me conquistou quando disse: \u201cn\u00e3o, pai, deixa que quando tiver na hora o senhor analisa a gente, os tr\u00eas filhos\u201d. Eu contrato uma empresa, ela analisa, de repente nenhum dos tr\u00eas, se nenhum dos tr\u00eas tiver compet\u00eancia o senhor contrata uma pessoa de fora pra dar continuidade \u00e0 sucess\u00e3o da empresa. A\u00ed a partir da\u00ed ela me ganhou mais ainda. Comecei a prestar aten\u00e7\u00e3o mais nela e deixar conquistar, agora eu estou chamando ela mais pra conversar, mas deixei conquistar. Ian (Correa, vice-presidente) e os outros diretores t\u00eam dado muito apoio e estou sempre buscando mais. O tempo dela \u00e9 curto e eu digo: \u201cminha filha, escuta aqui teu pai, vem pras reuni\u00f5es, pra poder voc\u00ea aprender mais coisa\u201d. Tenho 65 anos vou fazer 66 e ainda hoje eu aprendo com meus funcion\u00e1rios, amigos, aprendo a escutar, com a imprensa, aprendo vendo a quest\u00e3o pol\u00edtica. Esta crise est\u00e1 me ajudando mais ainda porque eu gosto de economia.<br \/>\nOP \u2013 Certa vez, Aline contou ter ouvido uma conversa quando ela tinha 8 anos. O senhor lembra?<br \/>\nVILMAR \u2013 Pois \u00e9, ela guardou isso em segredo. Sofreu muitos anos e n\u00e3o sabia que ela sofreu. Ela ficou com uma queixa de mim. Parece que eu falei que n\u00e3o era a filha que eu mais amava, alguma coisa assim. N\u00e3o lembro bem. E ela era ca\u00e7ula. Na verdade em 1990 eu sofri um acidente muito grave e ela com 10 anos de idade \u2013 mais ou menos \u2013 me deu tanto apoio. Foi dos tr\u00eas quem me deu mais apoio. Ela conquistou meu cora\u00e7\u00e3o ali e vou dizer. Meus filhos s\u00e3o aben\u00e7oados. Nenhum me decepcionou. S\u00e3o filhos maravilhosos. Depois fui saber que ela tinha uma queixa, que eu era mais apegado aos outros dois (risos). E agora ela conquistou e acho que isso deu for\u00e7a a ela. J\u00e1 vi at\u00e9 ela chorar comentar isso numa palestra dela.<br \/>\nOP \u2013 A sucess\u00e3o depende dela, do momento que estiver pronta ou na hora que o senhor achar que n\u00e3o \u00e9 mais seu tempo de estar aqui, de se dedicar tanto \u00e0 empresa?<br \/>\nVILMAR \u2013 Eu s\u00f3 vou ter mais uma seguran\u00e7a, que \u00e9 ela, e estou mais convencido que \u00e9 ela porque os outros dois tamb\u00e9m j\u00e1 apoiaram e reconheceram que ela \u00e9 mais preparada. Se os outros e a m\u00e3e tamb\u00e9m reconhecem, ent\u00e3o n\u00e3o tenho mais como avaliar, s\u00f3 tenho como esperar que ela conquiste mais espa\u00e7o. Depende dela.<br \/>\nOP \u2013 O que ainda \u00e9 sonho para quem chegou aonde o senhor chegou? O senhor ainda tem sonhos?<br \/>\nVILMAR \u2013 Tenho!<br \/>\nOP \u2013 Quais s\u00e3o?<br \/>\nVILMAR \u2013 O meu maior sonho \u00e9 ver a sociedade bem. Minha fam\u00edlia j\u00e1 est\u00e1 bem, gra\u00e7as a Deus. E \u00e9 pra isso que a gente vai trabalhar, continuar trabalhando, pra ver o Nordeste bem. Nordeste que nos \u00faltimos anos ia crescendo mais que a m\u00e9dia do Brasil. Meu sonho \u00e9 esse, ver o Nordeste crescendo mais do que o Brasil, Agora se a gente n\u00e3o tomar cuidado, n\u00f3s podemos voltar novamente a ser o nordestino do passado, continuar ganhando renda per capita 50% do que tem o Centro-Sul. Isso \u00e9 meu sonho, que se aproxime. Nem que seja daqui a um s\u00e9culo.<br \/>\nOP \u2013 Mas empresarialmente o que voc\u00ea projeta de sonho?<br \/>\nVILMAR \u2013 Continuar crescendo, com mais cautela agora porque n\u00e3o se pode confiar mais no Governo. Nossa meta agora \u00e9 diminuir o passivo financeiro para poder continuar crescendo. Eu fui muito arrojado e acho que esse meu arrojo ajudou a crescer, mas tamb\u00e9m me trouxe dor de cabe\u00e7a e crise. Acho realmente que o Ivens Dias Branco e o Grupo Edson Queiroz s\u00e3o duas li\u00e7\u00f5es muito grandes, boas, pra voc\u00ea ter uma empresa mais s\u00f3lida, mais capitalizada e com mais liquidez.<br \/>\nOP \u2013 Falando de Nordeste, Cear\u00e1 e do pr\u00f3prio Ivens, ele contava que no come\u00e7o teve de esconder a origem da empresa. Punha nas embalagens BR-116, omitindo o Cear\u00e1. E voc\u00eas trazem \u201ccearense\u201d no nome. O que isso significa?<br \/>\nVILMAR \u2013 Voc\u00ea agora me fez uma pergunta maravilhosa, porque pra mim foi surpresa muito grande. E eu tive uma decep\u00e7\u00e3o realmente em 1990 quando eu sofri muito a concorr\u00eancia. No in\u00edcio da d\u00e9cada, ainda come\u00e7ou em 1986 essa concorr\u00eancia forte. Eu disse: \u201cn\u00e3o vou botar empresa em S\u00e3o Paulo, em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos\u201d. Isso em 1990, 1991. Com dois anos minha empresa, se eu n\u00e3o tivesse sa\u00eddo de l\u00e1, tinha quebrado. Mas eu sou determinado, botei, com dois anos n\u00e3o deu, sa\u00ed, me apertaram, me apertaram l\u00e1 que eu tive que sair. Ent\u00e3o eu vi que um nordestino era discriminado naquela \u00e9poca. Hoje n\u00e3o, pelo contr\u00e1rio. Hoje tenho orgulho. Nordestino j\u00e1 \u00e9 respeitado e gra\u00e7as ao A\u00e7o Cearense ainda mais respeitado no ramo do a\u00e7o. Porque ningu\u00e9m acreditava na A\u00e7o Cearense. Hoje conquistamos o Brasil e vendemos de Manaus (AM) a Porto Alegre (RS). N\u00f3s temos credibilidade no mercado. Nossa log\u00edstica dizem que \u00e9 a melhor do Brasil. At\u00e9 concorrentes grandes, grandes sider\u00fargicas reconhecem isso e o nosso cliente reconhece isso. O a\u00e7o da Sinobras, que diziam n\u00e3o ser bom, assim que inauguramos, pelo contr\u00e1rio, hoje \u00e9 o a\u00e7o do Brasil.E come\u00e7ou com S\u00e3o Paulo. Foi o paulista que valorizou nosso a\u00e7o. A certifica\u00e7\u00e3o atesta que \u00e9 um dos melhores a\u00e7os que eles tinham certificado no Brasil.<br \/>\nOP \u2013 O que significa uma sider\u00fargica gigante como a CSP no Cear\u00e1 para o seu setor?<br \/>\nVILMAR \u2013 Para o Cear\u00e1 a CSP foi de suma import\u00e2ncia porque ela, mais importante ainda \u00e9 a lamina\u00e7\u00e3o que a gente ia fazer, mas com a crise interrompeu. Ent\u00e3o s\u00f3 Deus sabe, quando a crise passar a gente pode continuar o projeto. Mas a CSP \u00e9 de uma import\u00e2ncia muito grande pro Cear\u00e1, est\u00e1 gerando empregos para o Cear\u00e1, mas em triplicidade tem que ter lamina\u00e7\u00e3o. A lamina\u00e7\u00e3o porque esse a\u00e7o \u00e9 feito em placa e est\u00e1 sendo exportado. Inclusive a A\u00e7o Cearense poderia absorver hoje 30% dessa capacidade dela. N\u00f3s temos capacidade j\u00e1 instalada para 30% de tudo que se produz da placa, s\u00f3 que falta lamina\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o temos hoje capital nem cr\u00e9dito para poder botar. Seria um bilh\u00e3o de d\u00f3lares, para a capacidade de 30% de placa de absorver essa placa. Mas se a gente trabalhar, vamos continuar e quem sabe n\u00e3o realiza esse sonho do cearense. No Norte e Nordeste n\u00e3o h\u00e1 lamina\u00e7\u00e3o, sider\u00fargica de planos. S\u00f3 no Centro-Oeste, Centro-Sul. Mesmo que n\u00e3o seja a A\u00e7o Cearense, que seja qualquer um. Na hora que tiver, que a placa for laminada no Cear\u00e1, voc\u00ea vai ver como vai explodir a economia do Cear\u00e1 e do Nordeste.<br \/>\nOP \u2013 Este projeto de lamina\u00e7\u00e3o seria com a Posco?<br \/>\nVILMAR \u2013 Seria. Mas este projeto est\u00e1 abortado. At\u00e9 porque a crise do a\u00e7o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no Brasil, \u00e9 mundial. Mas j\u00e1 melhorou. A China j\u00e1 resolveu a subir pre\u00e7o.Acho que a China vai continuar subindo e isso vai viabilizar esse projeto.<br \/>\nPERGUNTA DO LEITOR<br \/>\nVALDEL\u00cdRIO SOARES<br \/>\nEmpres\u00e1rio<br \/>\nNa jornada de menino pobre a grande industrial voc\u00ea aprendeu muitas li\u00e7\u00f5es. Qual aquela mais valiosa que voc\u00ea compartilharia com jovens que est\u00e3o botando o p\u00e9 na estrada do empreender?<br \/>\nEu digo Valdel\u00edrio, que conhe\u00e7o ele e gosto dele, que voc\u00ea fazer tudo com prazer. Primeiro ter prazer com o que faz, se divertir, tem gente que se diverte com esporte, coisa assim, jogos, eu n\u00e3o. Eu me divirto trabalhando. E acho que quem se diverte trabalhando tende a crescer mais do que o concorrente porque n\u00f3s hoje vivemos \u00e9 uma locomotiva atr\u00e1s da gente e a gente vai na frente. Se voc\u00ea escorregar e a locomotiva passa e lhe esmaga. Tem que procurar fazer o melhor. Quem vai empreender deve analisar porque n\u00e3o \u00e9 todo mundo que nasceu para ser empreendedor. \u00c0s vezes tem vontade mas n\u00e3o \u00e9 a voca\u00e7\u00e3o. Tem que ter cabecinha bem aberta com racioc\u00ednio bom e ganhar credibilidade. Hoje n\u00e3o d\u00e1 mais pra ser aventureiro, querer ganhar s\u00f3 no bico, levar os outros. N\u00e3o. Minha meta foi ser honesto com cliente e fornecedor. Eu trato meu fornecedor t\u00e3o bem, t\u00e3o bem quanto meu cliente. N\u00e3o adianta dizer \u201cAh meu cliente que manda\u201d. O cliente manda desde que me d\u00ea algum lucro, mas tenho que ter pre\u00e7o, qualidade e servi\u00e7o para atender bem.<br \/>\nFonte: O Povo<\/p>\n","protected":false},"featured_media":1723,"template":"","meta":{"_acf_changed":false,"inline_featured_image":false},"categoria-noticia":[],"class_list":["post-1716","noticia","type-noticia","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":{"link":""},"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.9 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>O Homem de a\u00e7o do Cear\u00e1 - Grupo A\u00e7o Cearense<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/previews.elleven.digital\/acocearense\/noticia\/o-homem-de-aco-do-ceara\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O Homem de a\u00e7o do Cear\u00e1 - 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